[1] “Agora eu vou ensinar vocês a ter orgulho". Ao preto
ela ensinou a ter orgulho de ser preto, com todas as
coisas da pretidão, do cabelo à fala. Ao índio ela ensinou
a mesma coisa.
[5] Ao povo, a mesma coisa, bem como que o povo é
que é o dono do Brasil. Com isso ela passou a ser cada
vez mais odiada e sempre descobriam onde havia uma
escola dela, enforcavam professores, punham no tronco
os alunos, amaldiçoavam os lugares e faziam tudo para
[10] destruir o que ela construía. Ela vivia se escondendo do
Exército, que é a pior e a mais poderosa polícia de todas.
Mas o povo gostava dela e a toda parte que ela fosse
tinha lugar para se esconder e ninguém informava aos
forasteiros onde ela estava escondida, tendo muitos que
[15] ela fosse uma santa em toda sua pura beleza.
Não se sabe por onde anda Maria da Fé, nem o
que está fazendo agora. Mas se sabe que, como vem
escrito no seu nome, ela continua acreditando que um
dia vai vencer, nem que não seja ela em pessoa, mas
[20] quem herde as ideias e a valentia dela, que ela acha que
serão muitos. Como nasceu por perto da Independência,
já deve de estar velha, porque ninguém conseguiu nunca
cortar a cabeça dela. E talvez nem velha nem esteja,
porque sabe o povo que ela só faz aniversário de quatro
[25] em quatro anos, tendo nascido num dia 29 de fevereiro.
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o Povo Brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 519-520.
Esse texto, um fragmento da obra Viva o Povo Brasileiro, do escritor João Ubaldo Ribeiro, narra a formação do povo brasileiro, a partir da perspectiva das vozes excluídas ao longo desse processo. A partir da leitura do texto, identifique as proposições verdadeiras com V e, com F, as falsas.
( ) O texto, em terceira pessoa, narra a história de uma mulher lendária que luta pela valorização e legitimação da classes populares, que sempre foram silenciadas no processo de formação do povo brasileiro.
( ) O sujeito narrador traz o discurso de Maria da Fé de forma distanciada e imparcial, pois não se reconhece nessa ideologia e a considera apenas um mito construído pelo imaginário popular.
( ) Os dispositivos criados por Maria da Fé, em seu itinerário de resistências às ideologias dominantes, buscam, essencial e contraditoriamente, a conscientização da identidade cultural através da cultura letrada instituída.
( ) A linguagem predominante na narrativa revela a valorização da cultura oral, visto que o narrador traz marcas e estruturas linguísticas de oralidade ao longo de sua exposição.
( ) O uso do sujeito indeterminado, em “sempre descobriam onde havia uma escola dela, enforcavam professores, punham no tronco os alunos, amaldiçoavam os lugares e faziam tudo para destruir o que ela construía” (l. 7-10), explicita as ideologias e ações subjugadoras dos grupos hegemônicos.
A alternativa que contém a sequência correta, considerando a marcação de cima para baixo, é a