[1] Ora, daquela vez, como das outras, Fabi-
ano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a
transação meio apalavrada e foi consultar a mu-
lher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o bar-
[5] reiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distri-
buiu no chão sementes de várias espécies, reali-
zou somas e diminuições. No dia seguinte, Fabiano
voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou
que as operações de sinhá Vitória, como de
[10] costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a
explicação habitual: a diferença era proveniente de
juros.
Não se conformou: devia haver engano.
Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que
[15] era brutp, mas a mulher tinha tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se desco-
briu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a
vida inteira assim no toco, entregando o que era
dele de mão beijada! Estava direito aquilo ? Traba-
[20] lhar como negro e nunca arranjar a carta de alforria!
O patrão zangou-se, repeliu a insolência,
achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço
noutra fazenda.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhe-
[25] cou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se
havia dito palavra à-toa, pedia desculpa. Era bruto,
não fora ensinado. Atrevimento não tinha, conhecia
o seu lugar. Um cabra. Ia lá puxar questão com
gente rica? Brutp, sim senhor, mas sabia respeitar
[30] os homens. Devia ser ignorância da mulher. Até es-
tranhara as contas dela. Enfim, como não sabia ler
(um bruto, sim senhor), acreditaria na sua velha.
Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra.
[35] O amo abrandou, e Fabiano saiu de cos-
tas, o chapéu varrendo tijolo, Nã porta, virando-
se, enganchou as rosetas das esporas, afastou-se
tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no
chão como cascos.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 58. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1986. p. 92-94.
Com base nas ideias, nas estruturas linguísticas e no período literário a que pertence o texto, assinale a alternativa correta.