[1] Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência à Rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
[5] solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.
Pede-se a quem avistar Luísa Porto, 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
[10] onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos,
ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
[15] até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra, morena;
[20] rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
[25] Mãe entrevada chamando.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.
Nada de insinuações quanto à moça casta
que não tinha, não tinha namorado.
[30] Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei.
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
[35] ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.
Mas se acharem
que a sorte dos povos é mais importante
[40] e que não devemos atentar
nas dores individuais,
se fecharem ouvidos
a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
[45] virem a página:
Deus terá compaixão
da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
[50] Deus lhe dirá: Vai,
procura tua filha, beija-a
e fecha-a para sempre em teu coração.
Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
[55] sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera, que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam,
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Desaparecimento de Luísa Porto. In: Novos Poemas, v. 1, de Carlos Drummond de Andrade: Nova Reunião – 19 Livros de Poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983. p. 230-234.
Considere as propostas de reescrita abaixo para o seguinte trecho do poema (l. 30-33).
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei.
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
1 - Algo de extraordinário deve ter acontecido – terremoto, chegada de rei, as ruas mudaram de rumo – para que demore tanto, é noite.
2 - Algo de extraordinário terá acontecido – terremoto, chegada de rei; talvez, as ruas tenham mudado de rumo – para que demore tanto; afinal, é noite.
3 - É noite para que demore tanto; algo de extraordinário terá acontecido: terremoto, chegada de rei; talvez, as ruas tenham mudado de rumo.
Quais propostas estão gramaticalmente corretas?