[1] Sentado no banco do jardim, Amaro lê os seus poetas.
As folhas da árvore que lhe dá sombra desenham arabescos móveis nas páginas
do livro.
O jardim é uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, como uma folha de
[5] papel de seda levada pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa
se despetala lentamente e as pétalas rolam para o chão. Há, pelos canteiros, verdes de
todos os matizes. As glicínias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insetos
minúsculos de asas coloridas.
Amaro fecha o livro e olha o jardim. Por que será que lhe vem à memória a imagem
[10] de Clarissa? Clarissa é parte integrante deste jardim florido e luminoso, Clarissa é como
a relva veludosa, como as glicínias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa é
qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa é música e é poesia, menina e moça – olhos
abertos para o mistério da vida, alma que amanhece.
Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua
[15] frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura
mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele – insensato – pensava que a vida estava
só nos livros...
Agora é tarde. Tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se
repete.
VERÍSSIMO, Érico. Clarissa. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 97.
Assinale a alternativa correta em relação à obra Clarissa, Érico Veríssimo, e ao Texto 5.