[1] Tínhamos lutado em silêncio, sem que nada mais se ouvisse do que os encontrões pelo soalho. No corredor,
entretanto, vimos Aristarco que chegava como em socorro. Bento Alves passou; imobilizou-o com o olhar sem
vista, esgazeado, medonho, de quem acaba de perpetrar um homicídio e desapareceu, trôpego, manchado
de pó, lábios inflamados, desordem nos cabelos.
[5] Aristarco veio sobre mim. Que explicasse a briga! Eu estava como o adversário, empoeirado e sujo como de
rolar sobre escarros.
Respondi-lhe com violência.
“Insolente”! rugiu o diretor. Com uma das mãos prendendo-me a blusa, a estalar os botões, com a outra pela
nuca, ergueu-me ao ar e sacudiu. “Desgraçado! desgraçado, torço-te o pescoço! Bandalhozinho impudente!
[10] Confessa-me tudo ou mato-te.”
Em vez de confessar, segurei-lhe o vigoroso bigode. Fervia-me ainda a excitação do primeiro combate; não
podia olhar conveniências de respeito. Esperneei, contorci-me no espaço como um escorpião pisado. O
diretor arremessou-me ao chão. E, modificando o tom, falou: “Sérgio! ousaste tocar-me!”
– Fui primeiro tocado! repliquei fortemente.
[15] – Criança! feriste um velho!
Reparei que havia no chão fios brancos de bigode.
– Fui vilmente injuriado, disse.
– Ah! meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao próprio pai, e os parricidas serão malditos.
O tom comovido deste final inesperado impressionou-me até o íntimo d’alma. Estava vencido. Fiquei por um
[20] minuto horrorizado de mim mesmo. De volta do atordoamento, achei-me só no corredor. A saída dramática
do diretor aumentou-me ainda remorsos. Houve uma reação de esforço moral e desatei nervosamente em
pranto, chorei a valer, amparando-me ao peitoril de uma janela.
Contava certo com um castigo excepcional, uma cominação qualquer do célebre código do arbítrio, em artigo
cujo grau mínimo fosse a expulsão solene.
[25] Esperei um dia, dois dias, três: o castigo não veio. Soube que Bento Alves despedira-se do Ateneu na mesma
tarde do extraordinário desvario. Acreditei algum tempo que a minha impunidade era um caso especial do
afamado sistema das punições morais e que Aristarco delegara ao abutre da minha consciência o encargo
da sua justiça e desafronta. Hoje penso diversamente: não valia a pena perder de uma vez dois pagadores
prontos, só pela futilidade de uma ocorrência, desagradável, não se duvida, mas sem testemunhas.
[30] O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o diretor num conchavo bilateral de reserva,
como se nada houvesse.
(POMPEIA, Raul. O Ateneu. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 200-202).
No segundo parágrafo do trecho transcrito, Sérgio apresenta-se como “empoeirado e sujo como de rolar sobre os escarros”. A sujeira do protagonista é física, portanto, o adjetivo tem o sentido denotativo. Contudo, a sensação de sujeira pode ser estendida a outras circunstâncias relacionadas ao trecho e ao romance. Neste sentido, considere as afirmativas a seguir.
I. O reconhecimento de tratamento diferente aos dois alunos denota, no narrador-personagem, a percepção de que a administração agiu de forma suja.
II. Os remorsos de Sérgio e as reprimendas de Aristarco, após o episódio com o diretor, levam o protagonista a sentir-se sujo.
III. O sentimento de sujeira experimentado pelo protagonista está vinculado ao fato de imputar a culpa no episódio ao colega Bento Alves.
IV. O desconforto do protagonista aproxima-se da sensação de sujeira após as relações homossexuais praticadas com os colegas e descritas com detalhes no romance.
Assinale a alternativa correta.