[1] variação linguística é uma realidade que,
embora razoavelmente bem estudada pela
sociolinguística, pela dialetologia e pela
linguística histórica, provoca, em geral,
[5] reações sociais muito negativas.
O senso comum tem escassa percepção de
que a língua é um fenômeno heterogêneo,
que alberga grande variação e está em
mudança contínua. Por isso, costuma
[10] folclorizar a variação regional; demoniza a
variação social e tende a interpretar as
mudanças como sinais de deterioração da
língua. O senso comum não se dá bem com a
variação linguística e chega, muitas vezes, a
[15] explosões de ira e a gestos de grande violência
simbólica diante de fatos de variação.
Boa parte de uma educação de qualidade
tem a ver precisamente com o ensino de língua
– um ensino que garanta o domínio das práticas
[20] socioculturais de leitura, escrita e fala nos
espaços públicos. E esse domínio inclui o das
variedades linguísticas historicamente
identificadas como as mais próprias a essas
práticas – isto é, as variedades escritas e faladas
[25] que devem ser identificadas como constitutivas
da chamada norma culta. Isso pressupõe,
inclusive, uma ampla discussão sobre o próprio
conceito de norma culta e suas efetivas
características no Brasil contemporâneo.
[30] Parece claro hoje que o domínio dessas
variedades caminha junto com o domínio das
respectivas práticas socioculturais. Parece
claro também, por outro lado, que não se
trata apenas de desenvolver uma pedagogia
[35] que garanta o domínio das práticas
socioculturais e das respectivas variedades
linguísticas. Considerando o grau de rejeição
social das variedades ditas populares, parece
que o que nos desafia é a construção de toda
[40] uma cultura escolar aberta à crítica da
discriminação pela língua e preparada para
combatê-la, o que pressupõe uma adequada
compreensão da heterogeneidade linguística
do país, sua história social e suas
[45] características atuais. Essa compreensão deve
alcançar, em primeiro lugar, os próprios
educadores e, em seguida, os educandos.
Como fazer isso? Como garantir a
disseminação dessa cultura na escola e pela
[50] escola, considerando que a sociedade em que
essa escola existe não reconhece sua cara
linguística e não só discrimina impunemente
pela língua, como dá sustento explícito a esse
tipo de discriminação? Em suma, como construir
[55] uma pedagogia da variação linguística?
Adaptado de: ZILLES, A. M; FARACO, C. A. Apresentação. In: ZILLES, A. M; FARACO, C. A, orgs., Pedagogia da variação linguística: língua, diversidade e ensino. São Paulo: Parábola, 2015.
Se a expressão toda uma cultura escolar (l. 39-40) fosse substituída por culturas escolares, quantas outras palavras do período deveriam ser alteradas para fins de concordância?