ENEM/OBJ 2025 · Questão 36
13 de Maio. Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia em que comemoramos a libertação dos escravos.
Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz.
Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair.
Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: Viva a mamãe!
A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o habito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um bilhete assim:
"Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e não pude catar papel. Agradeço, Carolina”.
Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual a fome!
JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 1.ª Ed. São Paulo: Ática, 2014, p. 30
Muitos já escreveram sobre o cotidiano miserável das favelas, mas pelo olhar de quem está de fora dela. Em Quarto de despejo, a perspectiva é inversa: quem escreve é Carolina Maria de Jesus, catadora de recicláveis, mãe, pobre, negra, escritora e favelada. Segundo o registro acima, pode-se afirmar que
Resolução passo a passo com explicação detalhada
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