25 de janeiro
“De quando em quando, ela e o marido trocavam as suas
impressões com os olhos, e pode ser que também com a
fala. Uma só vez a impressão visual foi melancólica. Mais
tarde ouvi a explicação da mana Rita. Um dos convivas, —
sempre há indiscretos, — no brinde que lhes fez, aludiu à
falta de filhos, dizendo “que Deus lhos negara para que eles
se amassem melhor entre si”. Não falou em verso, mas a
ideia suportaria o metro e a rima, que o autor talvez houvesse
cultivado em rapaz; orçava agora pelos cinquenta anos, e
tinha um filho. Ouvindo aquela referência, os dois fitaram-se
tristes, mas logo buscaram rir, e sorriram. Mana Rita me
disse depois que essa era a única ferida do casal. Creio que
Fidélia percebeu também a expressão de tristeza dos dois,
porque eu a vi inclinar-se para ela com um gesto do cálix e
brindar a D. Carmo cheia de graça e ternura:
— A sua felicidade.
A esposa Aguiar, comovida, apenas pôde responder logo
com o gesto, só instantes depois de levar o cálix à boca,
acrescentou, em voz meio surda, como se lhe custasse sair
do coração apertado esta palavra de agradecimento:
— Obrigada.
Tudo foi assim segredado, quase calado.O marido aceitou a
sua parte do brinde, um pouco mais expansivo, e o jantar
acabou sem outro rasto de melancolia.”
No trecho da obra Memorial de Aires, pode-se notar uma característica estilística de seu autor que está bem identificada em