a chuva sem piedade descarnava o nosso caminho de terra. as poças eram fundas e os veios de água escorrendo por ali abaixo faziam sulcos enormes para caudais impressionantes. a dona tina barafustava pelos sapatos enterrados na lama, mas levava uma energia súbita pela nesga de esperança que se levantava. dizia, vamos, menino, vamos ver, tu gostas dele, não gostas. eu, constrangido, fazia que sim com a cabeça mas ela não estaria a olhar, ocupada com os pés no chão instável e com o anseio do que estava para vir. eu era ali um boneco, seria como um presente de natal para um menino, poderia brincar comigo, sentar-me, dar-me de comer, dizer-me coisas, pôr-me a falar e arrancar-me a alma.
MÃE, Valter Hugo. O nosso reino. Lisboa: Temas e debates, 2004. p. 85. Fragmento.
Nesse trecho do romance O nosso reino, o narrador deixa implícito que se sente