A doença do amor
Luiz Felipe Pondé
[1] Existe de fato amor romântico? Esta é uma pergunta que ouço quando, 1 em sala de aula,
[2] estamos a discutir questões como literatura romântica dos séculos 18 e 19. Quando o público é
[3] composto de pessoas mais maduras, a tendência é um certo ceticismo, muitas vezes elegante,
[4] apesar de trazer nele a marca eterna do desencanto.
[5] Quando o público é mais jovem há uma tendência maior de crença no amor romântico.
[6] Alguns diriam que essa crença é típica da idade jovem e inexperiente, assim como crianças creem
[7] em Papai Noel.
[8] Mas, em matéria de amor romântico, melhor ainda do que ir em busca da literatura dos
[9] séculos 18 e 19 é ir à fonte primária: a literatura europeia medieval, verdadeira fonte do amor
[10] romântico. A literatura conhecida como amor cortês.
[11] Especialistas no assunto, como o suíço Denis de Rougemont, suspeitavam que a literatura
[12] medieval criou uma verdadeira expectativa neurótica no Ocidente sobre o que seria o amor
[13] romântico em nossas vidas concretas, fazendo com que sonhássemos com algo que, na verdade,
[14] nunca existiu como experiência universal. Dos castelos da Provence francesa do século 12 ao cinema
[15] de Hollywood, teríamos perdido o verdadeiro sentido do amor medieval, que seria uma doença da
[16] qual devemos fugir como o diabo da cruz.
[17] Para além dos céticos e crentes, a literatura medieval de amor cortês é marcante pela sua
[18] descrição do que seria esse pathos amoroso. Uma doença, uma verdadeira desgraça para quem
[19] fosse atingindo em seu coração por tamanha tristeza. André Capelão, autor da época ("Tratado do
[20] Amor Cortês", ed. Martins Fontes), sintetiza esse amor como sendo uma "doença do pensamento".
[21] Doença essa que podemos descrever como uma forma de obsessão em saber o que ela está
[22] pensando, o que ela está fazendo nessa exata hora em que penso nela, com o que ela sonha à
[23] noite, como é seu corpo por baixo da roupa que a veste, o desejo incontrolável de ouvir sua voz, de
[24] sentir seu perfume. Mas a doença avança: sentir o gosto da sua boca, beijá-la por horas a fio.
[25] Mas, quando em público, jamais deixe ninguém saber que se amam. Capelão chega a supor
[26] que desmaios femininos poderiam ser indicativos de que a infeliz estaria em presença de seu
[27] desgraçado objeto de amor inconfessável. A inveja dos outros pelos amantes, apesar de condenados
[28] a tristeza pela interdição sempre presente nas narrativas (casados com outras pessoas, detentores
[29] de responsabilidades públicas e privadas), se dá pelo fato que se trata de uma doença encantadora
[30] quando correspondida.
[31] Nada é mais forte do que o desejo de estar com alguém a quem você se sente ligado, mesmo
[32] que a milhares de quilômetros de distância, sem poder trocar um único olhar ou toque com ela.
[33] O erro dos modernos românticos teria sido a ilusão de que esses medievais imaginariam o
[34] amor romântico numa escala universal e capaz de conviver com um apartamento de dois quartos,
[35] pago em cem anos.
[36] Não, o amor cortês seria algo que deveríamos temer justamente por seu caráter intempestivo
[37] e avassalador. Sempre fora do casamento, teria contra ele a condenação da norma social ou
[38] religiosa que, aos poucos, levaria as suas vítimas à destruição, psicológica ou física.
[39] Para os medievais, um homem arrebatado por esse amor tomaria decisões que destruiriam
[40] seu patrimônio. A mulher perderia sua reputação. Ambos viriam, necessariamente, a morrer por
[41] conta desse amor, fosse ele em batalha, por obrigação de guerreiro, fosse fugindo do horror de trair
[42] seu melhor amigo com sua até então fiel esposa. Ela morreria eventualmente de tristeza, vergonha
[43] e solidão num convento, buscando a paz de espírito há muito perdida. A distância física, social ou
[44] moral, proibindo a realização plena desse desejo incessante como tortura cotidiana.
[45] O poeta mexicano Octavio Paz, que dedicou alguns textos ao tema, entendia que a literatura
[46] medieval descrevia o embate entre virtude e desejo, sendo a desgraça dos apaixonados a maldição
[47] de ter que pôr medida nesse desejo (nesse amor fora do lugar), em meio à insuportável culpa de
[48] estar doente de amor.
Texto adaptado. Foi publicado em 16 de maio de 2016 na Folha de S. Paulo. Disponível em: Acesso em: 21 set. 2016.
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