A influência dos livros de filosofia na vida dos homens raramente se compara àquela dos efeitos das descobertas técnicas ou de revoluções políticas. Quando consideramos as consequências advindas da invenção da lâmpada, da má- quina a vapor ou do computador para a sociedade moderna, ou as mudanças na vida de milhões de pessoas devido às duas guerras mundiais do século XX, os efeitos dos livros clássicos de filosofia nos parecem como aqueles recordes mundiais em categorias esportivas extravagantes, praticadas por algumas poucas pessoas igualmente extravagantes, que talvez recebam apenas uma menção anual nas colunas de jornais.
Mas esse não é o caso de Dois tratados sobre o governo, de John Locke. Formulado em linguagem clara e despretensiosa, e que dá início à filosofia política do Iluminismo, esse escrito não surge em uma torre de marfim acadêmica e, sim, como parte de um acalorado debate, do qual participa toda uma nação e no qual o autor tomou claramente partido. Nessa obra, Locke fundamenta por que os governantes não poderiam dispor do poder a seu bel-prazer: este poder lhes foi outorgado pelo povo para ser exercido de acordo com determinadas regras, mas, em determinadas circunstâncias, deveria ser devolvido ao povo.
(O portal da filosofia, 2009.)
No primeiro parágrafo, o autor