A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos: mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros. Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer.
Pe. VIEIRA, Antônio. Comem-se uns aos outros. Vieira: trechos escolhidos por Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Agir, 1971. p. 55.
Pe. VIEIRA, Antônio. Comem-se uns aos outros. Vieira: trechos escolhidos por Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Agir, 1971. p. 55.
O texto de Pe. Antônio Vieira, maior orador sacro do Barroco no Brasil, revela