A seguir, faça a leitura do conto “Dois velhinhos” e responda à Questão.
DOIS VELHINHOS
Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela do asilo. Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora. Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado anuncia o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
— Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico.
Cochila um instante — é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.
TREVISAN, Dalton. Quem tem medo de vampiro? São Paulo: Ática, 1998. p.69.
Analise as seguintes proposições:
I - O conto do escritor Dalton Trevisan aborda a temática da solidão na velhice. Logo, para vencer o sentimento de isolamento e indolência, os personagens lançam mão do recurso da imaginação.
II - O narrador expõe para o leitor os pensamentos e os sentimentos dos personagens, como podemos perceber no fragmento “O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo”.
III - O segundo velhinho espera ansioso poder ocupar o seu espaço debaixo da janela para admirar o mundo ao qual um dia pertencera.
IV - Finalmente, quando o homem mais novo consegue aproximar-se da janela, percebe, para a sua surpresa, que o cenário exterior não era como o outro velhinho lhe havia relatado.
V - O desfecho do conto nos revela que o velhinho sobrevivente não foi capaz de criar, através de sua imaginação, as paisagens bonitas, provando que a sua cegueira é metafórica.
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