[...] a tribo não possui um rei, mas um chefe que não é chefe
de Estado. O que significa isso? Simplesmente que o chefe não
dispõe de nenhuma autoridade, de nenhum poder de coerção, de
nenhum meio de dar uma ordem. O chefe não é um comandante,
as pessoas da tribo não têm nenhum dever de obediência.
O espaço da chefia não é o lugar do poder [...]. A propriedade
mais notável do chefe indígena consiste na ausência quase
completa de autoridade. [...] O chefe é um fazedor de paz; ele é a
instância moderadora do grupo [...]. Ele deve apaziguar as
disputas, regular as divergências, não usando de uma força que
não possui e que não seria reconhecida. [...] Os meios que o
chefe detém para realizar sua tarefa de pacificador limitam-se ao
uso exclusivo da palavra: não para arbitrar entre as partes
opostas, pois o chefe não é um juiz e não pode se permitir tomar
partido por um ou por outro, mas para, armado apenas de sua
eloquência, tentar persuadir as pessoas da necessidade de se
apaziguar [...].
CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o estado. São Paulo: COSAC NAIFY, 2012 (adaptado).
O texto enfatiza uma característica dos povos nativos da América que, em geral, era interpretada pelos colonizadores como