Alguns anos após a publicação de Sagarana, Guimarães Rosa escreveu uma carta a João Condé, explicando a gestação de seus contos. Primeiro, decidira escrever uma série de “histórias adultas da carochinha”; só depois pusera-se a pensar na localização dos relatos. “Podia ser Barbacena, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que escolhi”. Rosa, como sabemos, voltou ao chão real de sua aldeia para engendrar alguns dos momentos mais luminosos e universais de nossa literatura (...)
Os primeiros contos publicados pelo demiurgo de Cordisburgo parecem inspirados nos relatos de terror e aventura de Edgar Allan Poe: é o caso de O Mistério de Highmore Hall, peripécia gótica situada num castelo escocês, e Chronos Kai Anagke, em que um jovem desnorteado assiste a uma partida de xadrez entre o Tempo e o Destino. É fácil concluir que, nesses relatos juvenis, (...) para apossar-se do sertão “que era mais seu”, Rosa teve de transitar por outros universos sob a égide da pura imaginação. Os liames do insólito e do maravilhoso, aliás, estendem-se também por sua obra madura, como bem demonstra a leitura de Um Moço Muito Branco, A Menina de Lá e a A Terceira Margem do Rio. (...)
Como argumenta Braulio Ravares no interessantíssimo livro A “Pulp Fiction”, de Guimarães Rosa (Marca de Fantasia, 2008), há indícios de que Rosa apreciasse mesmo a literatura fantástica, incluindo a ficção científica e outros gêneros que a crítica brasileira tradicionalmente desprezou.
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(José Francisco Botelho – VEJA – 12.12.2018 – adaptação)
Sobre esse texto, são feitas as seguintes afirmativas:
I. No período inicial, o leitor é informado do teor da carta de Guimarães Rosa, que consiste na forma como foram concebidos seus contos.
II. O terceiro período enfatiza a diversidade espacial que caracteriza toda a obra de Guimarães Rosa.
III. Todo o segundo parágrafo presta-se a construir a conclusão de que Guimarães Rosa teve de aventurar-se em cenários incomuns e extraordinários, para aquietar-se, como dono, do ambiente que já era seu.
IV. O último parágrafo tem como propósito revelar a reação positiva da crítica brasileira ante esse aspecto surreal da obra de Guimarães Rosa.
É correto o que se afirma somente em: