As acapuranas e o rio
As acapuranas, que árvores solenes!,
aqui de frente de casa
na beirinha do Andirá,
ficam indisfarçadamente desgostosas
quando as águas da cheia começam a subir
pelos seus troncos centenários,
mas muito bem conservados e roliços.
Encolhem as suas favas,
os galhos pendem cabisbaixos.
Elas são quatro, mas de tão juntinhas,
quem vê de longe pensa que é uma só.
Já escutei quando a maior delas
disse para um banzeiro emproado:
Pode bater, que daqui a gente não sai.
Ontem eu quis a sesta à sombra delas,
o rio ficou longe na vazante.
A nossa amizade de vinte anos
me pede a verdade: elas estão
com faceirices de moça no verão.
Aconchegaram a minha fadiga
de tantas páginas defronte das águas.
Mas quando abri devagarinho os olhos,
me espantei, depois sorri, ao ver
as folhas delas dançando e chamando
o rio para subir, vir mais para pertinho,
lamber devagar os seus troncos,
porque tinham delícias para dar.
(Thiago de Mello. Campo de milagres, 1998.)
Há passagens em que o poema assume um tom marcadamente narrativo, como se observa no verso: