CANTO DO PIAGA
DIAS, Gonçalves. In: Poemas de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. p. 21-23.
I
Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.
Esta noite – era a lua já morta –
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vi!
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!
Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.
O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro – ossos, carnes – tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.
Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiro, o espectro que eu vi
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!
II
Por que dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Por que dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.
Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem – vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?
E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?!
Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!
III
Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.
Traz embira dos cintos pendente
– Brenha espessa de vário cipó –
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; é só!
Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando – lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... – o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros.
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade –
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!
Glossário
Piaga: pajé, sábio ancião.
Anhangá: Deus indígena.
Manitôs: espíritos protetores.
Maracá: chocalho – instrumento indígena usado em solenidades religiosas e guerreiras.
Tupá: Deus indígena.
Acerca de Gonçalves Dias, Alfredo Bosi manifesta: “[...] foi o primeiro poeta autêntico a emergir em nosso Romantismo. [...] O núcleo “americano”, que pela intensidade expressiva, se prendeu
ao nome do poeta, é, de fato, exíguo no conjunto da
obra gonçalvina que vive dos grandes temas românticos do amor, da natureza, de Deus. Mas é preciso
ver na força de Gonçalves Dias indianista o ponto
exato em que o mito do bom selvagem, constante
desde os árcades, acabou por fazer-se verdade artística.”.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 114-15.
Julgue as sentenças seguintes, acerca de O canto do piaga, como corretas (C) ou incorretas (I):
1. No poema, assim como no restante de suas poesias indianistas, Gonçalves Dias demonstra pesquisa étnica e cultural, comprovada nos versos: [Não ouviste a coruja, de dia / Seus estrídulos torva soltar?].
2. A primeira estrofe da parte III, metaforicamente, descreve os mastros dos navios que estão prestes a invadir o litoral brasileiro.
3. Em [Vossas matas tais monstros contém.] constitui uma metáfora, que denotativamente, corresponde aos troncos gigantes semelhantes aos das árvores das florestas do Brasil.
4. O verso [Traz embira dos cintos pendente] remete às cordas utilizadas em navios.
5. Os versos [Dessas brenhas contém vossas matas, / Tais e quais mas com folhas; é só!] referem-se às riquezas naturais das florestas brasileiras, especificamente, aos cipós presentes nestas.
6. Nos versos [Brancas asas abrindo ao tufão, / Como um bando de cândidas garças, / Que nos ares pairando – lá vão.], contêm, uma metáfora no primeiro verso e, uma comparação no segundo e, os três versos remetem às velas do navio.
7. O verso [Negro monstro os sustenta por baixo,] estabelece relação imagética e semântica com toda a primeira estrofe da parte III, pois remete ao mesmo elemento natural: os troncos de árvores.
8. Na sétima estrofe da parte III, a metáfora presente no primeiro verso [Vem trazer-vos algemas pesadas,] é elucidada nos dois últimos versos da mesma estrofe.
9. Os versos [Vem trazer-vos crueza impiedade – / Dons cruéis do cruel Anhangá; / [...] Profanar Manitôs, Maracás.] apresentam um aspecto contundente da Colonização: a aculturação e domínio português.
10. A última estrofe do poema, respaldada pelos aspectos coloniais, inclusive estéticos, sob a máscara religiosa que vigorava à época do Romantismo, delega a responsabilidade das consequências da invasão portuguesa ao Piaga e aos seus deuses e protetores indígenas.
A alternativa que corresponde ao julgamento das sentenças é: