CENÁRIO
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio d’água que se dirige para o norte, e engrossado
com os mananciais, que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se
espreguiçar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito.
[5] Dir-se-ia que, vassalo e tributário desse rei das águas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os
rochedos, curva-se humildemente aos pés do suserano. Perde então a beleza selvática; suas ondas são calmas
e serenas como as de um lago, e não se revoltam contra os barcos e as canoas que resvalam sobre elas:
escravo submisso, sofre o látego do senhor.
Não é neste lugar que ele deve ser visto; sim três ou quatro léguas acima de sua foz, onde é livre ainda,
[10] como o filho indômito desta pátria da liberdade.
Aí, o Paquequer lança-se rápido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando,
deixando o pelo esparso pelas pontas do rochedo e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De
repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recua um momento para concentrar as suas forças e
precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a presa.
José de Alencar, O Guarani.
O emprego do par de termos “vassalo” / “suserano” indica um elemento importante na poética de O Guarani, a saber,