Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Fonte: PRADO, A. Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993, p.11.
O poema ‘Com licença poética’, parte integrante do livro ‘Bagagem’, de Adélia Prado, publicado em 1976, traz, assim como os outros poemas da escritora, observações do cotidiano, do caseiro provinciano, da linguagem simples, com alusões ao próprio processo criativo de sua escrita.
Com base no texto do poema, marque a alternativa que melhor responde à pergunta: qual é o sentido da figura de linguagem ‘vai carregar bandeira’ no terceiro verso e seu comentário no quarto verso?