Compra-me ou devora-te!
[1] Os grandes centros comerciais surgiram _ quase 100 anos, nos Estados Unidos.
[2] Multiplicaram-se após a Segunda Guerra Mundial, por lá e alhures, acompanhando a expansão dos
[3] subúrbios. Desde o princípio, a ideia foi criar um ambiente fechado, destinado _ estabelecer certo
[4] nível de controle sobre o comportamento das vítimas: os consumidores.
[5] Depois de décadas de expansão, nos Estados Unidos muitos centros comerciais vêm
[6] perecendo, vítimas da crise econômica e do comércio eletrônico. No Brasil, os centros comerciais já
[7] se contam _ centenas e o número continua crescendo. Enquanto o mundo começa a sentir os
[8] efeitos da era do consumismo, os países em desenvolvimento continuam emulando os
[9] desenvolvidos, clonando seus vícios com algumas décadas de atraso. Hoje, significativamente, os
[10] maiores centros comerciais do mundo estão em países em desenvolvimento, tais como China,
[11] Filipinas, Malásia, Tailândia, Turquia e Indonésia.
[12] Alguns urbanistas veem os centros comerciais com desconfiança. Os gigantes são
[13] frequentemente acusados de provocar a decadência de centros urbanos e de gerar impactos
[14] negativos sobre o trânsito. Por estes e outros motivos, alguns países desenvolvidos estabeleceram
[15] restrições _ construção de grandes centros comerciais.
[16] Sociólogos e antropólogos também costumam torcer o nariz para esses caixotes urbanos,
[17] tomados de horror por seus ambientes artificiais e sanitizados. Alguns os classificam como “não
[18] lugares”, espaços sem história ou identidade, aos quais multidões afluem sem que os indivíduos
[19] estabeleçam contato ou relação entre si, movidos unicamente pelo objetivo de consumir, sejam
[20] roupas, filmes, livros, refeições ou “experiências”.
[21] [...] Consumo e consumismo têm sido objeto de interesse de cientistas sociais _ tempos:
[22] sociólogos e antropólogos lhes dedicam prosa e verso. Em geral, os incomoda que o marketing e a
[23] cultura do consumo tenham um papel tão central em nossa sociedade. Agasta-lhes constatar que o
[24] mundo hoje iguala desenvolvimento a consumo. Irrita-os o mantra que afirma que quanto mais
[25] desenvolvida for uma sociedade mais seus cidadãos consomem. De fato, para a velha e para a nova
[26] classe média sucesso significa acumular bugigangas eletroeletrônicas, panos com marcas e
[27] acessórios com grifes, significa comprar uma casa e lotá-la de peças de utilidade incerta e de gosto
[28] duvidoso.
[29] Reza uma jocosa definição que a cultura do consumo é um amálgama de valores e
[30] comportamentos que se sustenta em três pilares: a mídia, o automóvel e o cartão de crédito. A
[31] mídia, especialmente a tevê, diz _ hordas o que comprar e onde encontrar; o automóvel as
[32] transporta até as fontes; e o cartão de crédito viabiliza a transação, mesmo que o cidadão não
[33] tenha fundos.
[34] No entanto, testemunhamos nas últimas décadas sinais de uma embriaguez que antecipa
[35] uma ressaca de grandes proporções: degradação ambiental, esgotamento de recursos naturais,
[36] invasão da esfera privada pelo mundo do trabalho, fragmentação do núcleo familiar, corrosão dos
[37] valores etc. A locomotiva do consumo, que nos trouxe até aqui, ameaça sair dos trilhos e vitimar
[38] seus frenéticos passageiros. Os pilotos usam alguma criatividade, unida a respeitáveis verbas de
[39] propaganda, para reformar e embelezar a máquina. Diz-se que o consumo agora deve ser
[40] responsável, verde e consciente. Mais agora é menos, porém,
[41] sensíveis ao discurso? Será a reforma suficiente para evitar desastres? Descobriremos nos próximos
[42] anos, ou não...
(WOOD Jr., Thomaz. Compra-me ou devoro-te!(Fragmento). In: Revista Carta Capital. Ano XVII, n. 708, lº de agosto de 2012, p. 76).
A respeito das ideias expressas no texto, considere as afirmativas a seguir.
I. O título faz alusão à Esfinge de Tebas, a qual, segundo a mitologia, estrangulava aqueles que se mostrassem incapazes de responder a um enigma por ela lançado. Agregando isso à discussão proposta no texto, pode-se inferir que o autor faz uma crítica ao sistema econômico no qual estamos imersos, o qual nos impulsiona ao consumo, estrangulando, metaforicamente, aqueles que a ele resistem.
II. Ao denominar os consumidores de “vítimas” (linha 4) – do latim victima, -ae, pessoa ou animal oferecida em sacrifício; no sentido figurado, pessoa que é sacrificada aos interesses de outrem –, o autor reforça a imagem do consumidor como aquele que é enredado pela armadilha que são os grandes centros comerciais: ambiente que exerce um controle social, impelindo ao consumo.
III. No sexto parágrafo do texto (linhas 29 a 33), o autor aponta o que seriam os três pilares da cultura do consumo: mídia, carro e cartão de crédito. Esses três elementos-chave não caracterizam, porém, a própria sociedade capitalista, que se estrutura sobre outros fundamentos.
IV. O autor encerra o texto com alguns questionamentos lançados a título de reflexão, o que permite compreender que, para a questão em debate, há uma resposta única e definitiva, que leva irreversivelmente a um futuro desastroso. Estão corretas apenas as afirmativas