Considere o seguinte poema de Manuel Bandeira, observando os comentários que se seguem a ele:
IRENE NO CÉU
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Fonte: BANDEIRA, Manuel: Meus Poemas Preferidos. Rio de Janeiro, Ediouro, 2007, p. 87.
I. O poema é uma declaração de respeito a uma senhora negra, com destaque para os traços do seu caráter – bondade, alegria, simpatia, fidelidade. Porém, a referência ao “céu” como um espaço onde (apenas depois da morte) não há discriminação (“Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”), deixa entrever as possíveis dificuldades da personagem em sua vida, o que dá a esse poema, doce e terno, também uma tonalidade de certa crítica social.
II. “Irene no céu” é um poema de uma só estrofe de sete versos rigidamente metrificados. Há grande riqueza metafórica presente, por exemplo, na descrição de São Pedro como representação figurada do típico senhor de escravos e sua forma peculiar de se dirigir a seus comandados. Além disso, do ponto de vista formal, chama a atenção, no que diz respeito ao léxico, o uso de expressões eruditas e típicas da alta cultura letrada.
III. É a linguagem do poema, com os recursos do coloquial e do discurso direto da personagem retratada, que induz o leitor a perceber tanto as ideias mais evidentes sobre o que se descreve - que Irene era amável e de bom caráter - quanto as que estão nas entrelinhas, como a suposta submissão de Irene, aprendida, talvez, na experiência da escravidão ou do preconceito racial, o que a leva a se dirigir a São Pedro dizendo “Licença, meu branco!”. Assinale: