Conveniência
Olhai, oh Senhor, os jovens nos postos de gasolina. Apiedai-vos dessas pobres criaturas a desperdiçar as mais belas noites de suas juventudes sentadas no chão, tomando Smirnoff Ice, entre bombas de combustíveis e pães de queijo adormecidos. Ajudai-os, meu pai: eles não sabem o que fazem. São Paulo não tem praças, eu sei. As ruas são violentas, é verdade, mas nem tudo está perdido.
Encaminhai-os para um boliche, que seja, mas afastai suas bochechas rosadas dos vapores corrosivos dos metanóis. Pois nem toda a melancolia de um playground, nem todo o tédio de um salão de festas ou, vá lá, a pindaíba do espaço público simbolizada pelo churrasco na laje justifica a eleição de um posto de gasolina como ponto de encontro. Tudo, menos essa oficina dentária de automóveis, taba de plástico e alumínio, neon e graxa, túmulo do samba e impossível novo quilombo de Zumbi.
É só o que vos peço, humildemente, no ano que acaba de nascer. Obrigado, Senhor.
PRATA, Antonio. Conveniência. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 11 jan. 2008. (Adaptado).
A relação que os fragmentos “Ajudai-os, meu pai: eles não sabem o que fazem” (linha 4) e “do samba e impossível novo quilombo de Zumbi” (linha 11) estabelecem com outros textos é denominada de