Cuidado com aqueles cujos bolsos estão cheios de esprit – de inteligência aguda – e que espalham essa sagacidade em todas as oportunidades, em todo lugar. Eles não têm nenhum demônio dentro de si, não são soturnos, ou sombrios, ou melancólicos, ou silenciosos. Nunca são desajeitados ou tolos. A cotovia, o tentilhão, o pintarroxo, o canário, estes piam e gorjeiam o dia todo; ao pôr do sol, repousam a cabeça debaixo da asa, e, pronto!, já estão dormindo. É então que o gênio torna sua lâmpada e a acende. E essa negra ave, solitária e selvagem, essa criatura indomável, com sua sombria e melancólica plumagem, abre a garganta e começa a cantar, faz ressoar os bosques e quebra o silêncio e as trevas da noite.
DIDEROT, Denis. “Salão de 1765”. In: BERLIN, I. As raízes do Romantismo. São Paulo, Três Estrelas, 2015, p. 89.
No fragmento, o filósofo francês Diderot já reconhecia em artistas de seu tempo algumas características presentes na estética da primeira metade do século XIX, como