De acordo com sua paixão dominante, Quaresma estivera muito
tempo a meditar qual seria a expressão poético-musical característica
da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e filósofos e
adquiriu a certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. [...]
[5] Ricardo vinha justamente dar-lhe lição mas, antes disso, por
convite especial do discípulo, ia compartilhar o seu jantar; e fora por
isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do subsecretário.
[...]
E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os
produtos nacionais: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia
[10] pequenas objeções e Ricardo dizia: “é, é, não há dúvida” – rolando
nas órbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se
sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua fisionomia miúda e
dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha
[15] nem uma flor. Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-
-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás
melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados.
Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente
nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias – flores
[20] exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas,
mais olentes, como aquelas que ele tinha ali.
Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma
Assinale a alternativa correta.