De quando em quando [os meninos] se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia
pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das
paredes e pelas gretas da janela. Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono,
arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos
[5] pais [Fabiano e sinha Vitória ]. Não era propriamente conversa: eram frases soltas,
espaçadas, com repetições e incongruências . Às vezes uma interjeição gutural dava energia
ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam
exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-
se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados,
[10] tentavam remediar a deficiência falando alto.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 63-64.
Na linha 7, o narrador refere-se a discurso ambíguo. Esse discurso é, muito freqüentemente, constituído de frases elaboradas de tal modo que o leitor pode associar determinado pronome a mais de um antecedente.
Constitui um exemplo disso: