Desde muito tempo, a minha comunhão com tudo o que chamam de natureza é uma experiência que não vejo ser valorizada por muita gente que vive na cidade. Já vi pessoas ridicularizando: “Ele conversa com árvore, abraça árvore, conversa com o rio, contempla a montanha, como se isso fosse uma espécie de alienação. Essa é a minha experiência de vida. Se é alienação, sou alienado. Há muito não programo atividades para “depois”. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã.
Penso naqueles versos de Carlos Drummond de Andrade: “Stop /Avida parou / Ou foi o automóvel?” Essa é uma parada para valer. O ritmo de hoje não é o da semana nem o do ano-novo, do verão de janeiro ou fevereiro. O mundo está agora numa suspensão. E não sei se vamos sair dessa experiência da mesma maneira que entramos. É como um anzol nos puxando para a consciência. Um tranco para olharmos para o que realmente importa.
Tem muita gente que suspendeu projetos e atividades. As pessoas acham que basta mudar o calendário. Quem está apenas adiando compromissos, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo no passado. O futuro é aqui e agora...
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020 (adaptado).
Essas considerações deAilton Krenak foram feitas no contexto da pandemia da Covid-19. Sobre as ideias do texto, assinale a alternativa correta.