Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
ALVES, Rubem. Sobre a morte e o morrer. Folha de S. Paulo. São Paulo, 12 out. 2003. Caderno Sinapse, p. 3.
A voz autoral, no final da crônica, em tom de piada, sugere uma nova especialidade médica, a “morienterapia”, cuja padroeira seria “Pietà” e, desse modo,