– É incrível – prossegue Cícero Branco, enquanto Barcelona lhe puxa repetidamente pela manga do casaco, como se lhe quisesse dizer algo – que só agora que estou morto e decomposto é que ouso dizer-vos estas coisas. Será que a verdade fede e é só da mentira que se evolam os doces perfumes da vida? Será que o famoso poço da lenda em cujo fundo se esconde a verdade, é feito de lodo e podridão?
O Prof. Libindo Olivares cobra coragem, afasta por um momento do nariz e da boca o lenço com que se defende dos miasmas dos mortos, e pergunta:
– Mas que é a Verdade?
Cícero Branco fita no professor suas pupilas mortas e responde, sorrindo:
– Não me venhas com essa paródia de Jesus diante de Pilatos, meu inefável paranoico! Estou falando na verdade com v minúsculo. E você sabe o que é a verdade? Não sabe porque vive numa mentira crônica. Falsa é a sua moral. Falsa a sua cultura. Falsa a sua proclamada amizade e correspondência com celebridades mundiais como Sartre, Mauriac, o Papa... sei lá mais quem! Seu latim é de ginasiano. Seu grego, mitológico. Sua cultura, um produto de leituras das Seleções do Reader’s Digest.
ERICO VERISSIMO – Incidente em Antares
Assinale a afirmação incorreta em relação ao texto ao lado e ao romance do qual foi extraído.