É isso. Na loja, caminho sobre mortos. Sobre caveiras e vértebras, sobre fêmures e costelas, sobre perônios e falanges. Sobre sonhos e terrores. Não só eu, claro: quem sabe do mal que se esconde sob o assoalho das casas brasileiras? Ninguém sabe, a ninguém ocorreu tal pergunta. Mas eu – o judeuzinho russo que atravessou o Atlântico no Madeira, o homem que aqui casou e aqui teve um filho -, eu tinha de me fazer essas indagações. Eu tinha de fazer sondagens imaginárias no chão que outros pisam sem maiores problemas. Eu tinha de me meter em perigosas, ainda que teóricas, prospecções. E o que me sugeriam tais especulações? Coisas assustadoras, coisas de desestabilizar o mais cético dos mortais.
Os cadáveres ali enterrados não se haviam, sem resistência, despojado da carne que envolvia seus ossos; no processo, sutil fluido exsudara dos corpos, fluido esse que durante décadas, séculos talvez, impregnara e saturara a terra. Um dia essa terra é violentada; um cano d’água nela é introduzido. Presença afrontosa, mas não invulnerável; mesmo canos enferrujam, sobretudo canos em terra sacra. Pertuitos minúsculos neles se abrem. São causa de vazamentos, causa de excesso na conta d’água, mas são causa de um fenômeno ainda mais perturbador.
SCLIAR, Moacyr. A Majestade do Xingu, São Paulo: Companhia das Letras, 2009 p.176
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra A Majestade do Xingu, Moacyr Scliar, e ao Texto 1.