... E vendo o homem com os olhos abertos como tudo passa, só nós vivemos como se não passáramos. [...] Todos imos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo; e assim como na nau uns governam o leme, outros mareiam as velas; uns vigiam, outros dormem; uns passeiam, outros estão assentados; uns cantam, outros jogam, outros comem, outros nenhuma coisa fazem e todos igualmente caminham ao mesmo porto; assim nós, ainda que não pareça, insensivelmente imos passando sempre e avizinhando-se cada um a seu fim: porque, conclui Ambrósio, tu dormes e o tempo anda: Tu dormis et tempus ambulat. Disse pouco em dizer que o tempo anda; porque corre, voa; mas advertiu bem em notar que nós dormimos; porque tendo os olhos abertos para ver que tudo passa, só para considerar que nós também passamos parece que os temos fechados.
VIEIRA, Pe. Antônio. A vida e o tempo. Vieira: trechos escolhidos. Rio de Janeiro: Agir, 1971. p. 84-85. (Nossos Clássicos).
O texto em evidência faz farte do Sermão Primeira Dominga do Advento, cujo autor, Pe. Antônio Vieira, é considerado a maior expressão da prosa barroca em Portugal e no Brasil do século XVII.
Esse texto comprova que