ENEM/OBJ 2025 · Questão 14
Eu falava iorubá e eve, e eles conversavam em um iorubá um pouco diferente do meu, mas entendi que iam levar as galinhas, em nome do rei. A minha avó não se mexeu, não disse que concordava nem que discordava, e eu e a Taiwo não tiramos os olhos do chão. Os guerreiros já estavam de partida quando um deles se interessou pelo tapete da minha avó e reconheceu alguns símbolos de Dan. Ele tirou o tapete das mãos dela e começou a chamá-la de feiticeira, enquanto outro guerreiro apontava a lança para o desenho da cobra que engole o próprio rabo que havia, mais sugerida do que desenhada, na parede acima da entrada da nossa casa.
Os guerreiros conversavam depressa e aos gritos, decerto resolvendo o que fazer, enquanto eu e a Taiwo nos demos as mãos, sem entendermos direito o que estava acontecendo. A minha avó se atirou ao chão diante deles, implorando que fossem embora, que levassem tudo o que quisessem levar, que Olorum* os acompanhasse. Eles não a ouviam e falavam de feitiços, de pragas e de Agontimé**. Como se já não houvesse sombra sob o iroco, uma outra sombra ainda mais escura e no formato de asas de um grande pássaro passou sobre a cabeça da minha avó. Eu já tinha ouvido falar daquele tipo de pássaro, era uma das lydmis, uma das sete mulheres-pássaro que quase sempre carregam más notícias.
GONÇALVES, A. M. Um defeito de cor. Rio de Janeiro, 2006, p. 10.
* Olorum: corresponde à ideia de Deus.
** Agontimé: uma das rainhas do Daomé, acusada de feiticeira pelo rei Adandozan e vendida como escrava. Uma das principais sacerdotisas do culto a Dan, a serpente sagrada, e a Elegbatá, o orixá da varíola e das pestes.
A metaficção de Ana Maria Gonçalves busca ampliar as perspectivas sobre a presença da cultura negra no Brasil. No trecho acima, essa intenção revela-se
Resolução passo a passo com explicação detalhada
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