— Eu sou novo aqui. Meu nome é João Caio.
Aproxima-se o rapaz, trazendo o rifle inseparável, na orelha o cigarro de palha apagado. O homem não recusa a conversa:
—- Me chamo Pereira — e explica apontando o rapaz: — É meu filho, seu nome é Leonel. Estamos com Cajango desde o combate de Arataca.
Duro é o semblante, o tropeiro observa. A mesma dureza que está no olhar. Quase de porco-espinho aquela barba. Nas mãos, que se põem dentro da luz, as cicatrizes se mostram. “Ele lutou a facão”, pensa João Caio. Mas, se o pai é uma estaca que parece concentrar a vida na voz — seca, metálica, de lâmina no corpo a corpo —, o filho não esconde a raiva nos olhos. A pele se estica no rosto enxuto, desenhando-se a caveira, os lábios como cortados por febre. Pesará pouco mais que o rifle e o tropeiro não entende como possa carregar os bornais de munição. Nos tiroteios, saltando de moita em moita, é um gato do mato.
FILHO, Adonias. Corpo vivo. 25. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. p. 53.
O fragmento em foco, pertencente a uma importante obra do Modernismo brasileiro, evidencia