Figura mais destacada da literatura brasileira do século XIX, Machado de Assis (1839-1908) transitou por diversos gêneros literários, tendo produzido uma obra ampla que passa pelo romance, o conto, a poesia, o teatro, a crônica e a crítica literária. O trecho a seguir é a abertura do conto O Alienista, incluído no volume Papéis Avulsos, de 1882.
I. De como Itaguaí ganhou uma Casa de Orates
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia. – A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas.
(ASSIS, Machado de. O alienista. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014. p. 19)
Sobre o trecho apresentado e o conto em questão, afirma-se:
I. Como ocorre em outras obras do autor, notadamente em Esaú e Jacó (1904), o tempo histórico representado é o do período imediatamente anterior à proclamação da República.
II. O contraste entre a vila de Itaguaí, no interior do Rio de Janeiro, e as cidades de Coimbra e Lisboa pode constituir um indício de ironia na caracterização do Dr. Simão Bacamarte, protagonista da história.
III. Ao longo do conto, as reviravoltas envolvendo a Casa Verde, instituição psiquiátrica criada pelo Dr. Simão Bacamarte, extrapolam o âmbito científico e misturam-se às disputas e aos interesses políticos locais.
Está/Estão correta(s) apenas a(s) afirmativa(s)