FRAGMENTO
Com tanta propriedade como isto descreve Davi neste salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é licito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim dizem – se vivera um Dom Manuel, um Dom João, o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. as o mesmo profeta, no mesmo salmo, nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse Rex meus et Deus meus, qui mandas salutes Jacob *“Tu mesmo és o meu rei, que dispões as salvações de Jacó.” (Sl 43:5)]. O reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu, e não nosso: Volo enim in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire *“ uero estabelecer em e na tua descendência o meu império.”+ – e como Deus é o rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus *“Tu mesmo és o meu rei”+ – e este rei é o que manda e o que governa: ui mandas salutes Jacob *“que dispões as salvações de Jacó”+ – ele, que não se muda, é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. vista, pois, desta verdade certa e sem engano esteve um pouco suspenso o nosso profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altíssimo, nas palavras que tomei por tema.
Fonte: VIEIRA, Antônio. Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. In: __________. Sermões do Padre Antônio Vieira. Porto Alegre: L&PM, 2016, p. 64-65.
FRAGMENTO
Mandou, dizendo assim, que os índios todos
Que tinha prisioneiros no seu campo
Fossem vestidos das formosas cores,
Que a inculta gente simples tanto adora.
Abraçou-os a todos, como filhos,
E deu a todos liberdade. Alegres
Vão buscar os parentes e os amigos,
E a uns e a outros contam a grandeza
Do excelso coração e peito nobre
Do General famoso, invicto Andrade.
Já para o nosso campo vêm descendo,
Por mandado dos seus, dous dos mais nobres.
Sem arcos, sem aljavas; mas as testas
De várias e altas penas coroadas,
E cercadas de penas as cinturas,
E os pés, e os braços e o pescoço. Entrara
Sem mostras nem sinal de cortesia
Sepé no pavilhão. Porém Cacambo
Fez, ao seu modo, cortesia estranha,
E começou: eneral famoso,
Tu tens à vista quanta gente bebe
Do soberbo Uraguai a esquerda margem.
Bem que os nossos avós fossem despojo
Da perfídia de Europa, e daqui mesmo
Co’snão vingados ossos dos parentes
Se vejam branquejar ao longe os vales,
Eu, desarmado e só, buscar-te venho.
Tanto espero de ti. E enquanto as armas
Dão lugar à razão, senhor, vejamos
Se se pode salvar a vida e o sangue
De tantos desgraçados. uito tempo
Pode ainda tardar-nos o recurso
Com o largo oceano de permeio,
Em que os suspiros dos vexados povos
Perdem o alento. O dilatar-se a entrega
Está nas nossas mãos, até que um dia
Informados os reis nos restituam
A doce antiga paz. Se o rei de Espanha
Ao teu rei quer dar terras com mão larga,
ue lhe dê uenos Aires, e Correntes,
E outras, que tem por estes vastos climas;
Porém não pode dar-lhes os nossos povos.
Fonte: GAMA, José Basílio da. O Uraguai. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 55-57.
Em relação aos fragmentos literários destacados, as alternativas estão corretas, EXCETO: