Genesíaco
Um homem na campina olhava o céu. As estrelas
pareciam aumentadas, de tamanho brilho.
Estrela, ó estrela, estrelas,
ele suplicou como se injuriasse.
Os que alimentavam o fogo
aproximaram-se admirados:
nós também queremos, repeti para nós.
Ó noite de mil olhos, reluzente.
Os vocativos
são o princípio de toda poesia.
Ó homem, ó filho meu,
convoca-me a voz do amor,
até que eu responda
ó Deus, ó Pai.
(Prado, Adélia. Genesíaco. In: Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015. p. 233.)
Analise as afirmações sobre o poema.
I. Nos dois primeiros versos, um homem – reduzido ao substantivo comum – articula seu espanto diante da imensidão de um céu estrelado com palavras que são, ao mesmo tempo, corriqueiras e mágicas.
II. O homem se disponibiliza contemplativamente: “olhava o céu”, e se deixa fascinar não pelo brilho comum, cotidiano, mas pelo brilho especial que então acontece e pelo qual ele é capturado: “tamanho brilho”, que nele suscita a exclamação, o vocativo – a expressão admirativa reduzida à sua essência.
III. A partir do pedido do grupo, o foco se desloca da natureza para o discurso. O homem elogia a obra divina, que se torna mais bela ainda no discurso poético. Cria-se um espelhamento: a beleza empírica contagia a palavra, que, elogiada, é estimulada a se embelezar ainda mais.
IV. O homem atende aos companheiros e repete o que havia dito da mesma maneira; modela a exclamação, enriquecendoa com metáforas. As duas falas são construídas por repetições. “Estrela, ó estrela, estrelas” é retomada por “Ó noite de mil olhos, reluzente”.
V. Nos versos 11 e 12, o criador dos astros e do poeta, a “voz do amor” (de acordo com a tradição bíblica, a palavra de Deus tudo criou), reconhece, graças ao momento criativo, que o homem é seu filho. Nos últimos versos, o homem também o reconhece como pai.
É correto o que se afirma APENAS em: