INANIA VERBA
Ah! Quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
Ardes, sangras, prega à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito todo, o que te deslumbra...
O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a palavra pesada abafa, a ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! Quem há de dizer das ânsias infinitas
Do sonho? E o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? E o asco mudo? E o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?
BILAC, Olavo. Obra Reunida. Rio de Janeiro, Nova Aguilar ,1977.
Olavo Bilac foi um dos mais louvados poetas de seu tempo e ainda hoje tem prestígio. Foi um artífice da palavra, sabendo conjugar o rigor formal parnasiano com uma grande expressividade.
Apesar do culto à forma