INSTRUÇÃO: Responder à questão com base nos textos 1 e 2.
TEXTO 1
Resíduo
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
(...)
[5] Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
[10] nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
(...)
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
[15] que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
[20] no poço?
(...)
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
[25] Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
[30] e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
[35] e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
TEXTO 2
Bandoleiros
Ada começou a cavar sua bolsa para a Boston
University ao se apaixonar perdidamente por um livro
chamado Minimal Society. É que lá havia um bom
curso de Ph.D. sobre o assunto. De que assunto se
[5] trata? É melhor que eu deixe Ada falar. Porque hoje,
simplesmente, eu não saberia dizer uma única linha
sobre o assunto. Se é que há algum assunto em
pauta na Minimal Society. Mas o fato é que muito se
falou sobre isso, e Ada literalmente transpirava toda
[10] ao conclamar que encarássemos a era da Minimal
Society.
Um núcleo comunitário mínimo, onde só circulassem
suas próprias mercadorias, completamente vedado às
injunções do comércio exterior.
[15] [...]
Quando eu perguntava sobre as possibilidades aí
do chamado intercâmbio cultural, Ada me respondia
que a Sociedade Minimal congrega todas as potências
do Homem, e portanto ela mesma se encarregaria de
[20] edificar seus próprios monumentos.
Na Boston University Ada encontrou muitos ade-
ptos da Sociedade Minimal. Vários deles já tinham com-
prado terras, para lá fundarem um dia suas pioneiras
Sociedades Minimais. Quando cheguei em Boston
[25] para visitá-la, ainda no aeroporto, Ada disse que esta-
va pensando entrar depois do curso numa Sociedade
Minimal no norte de Massachusetts. Achava que iria
emigrar para os Estados Unidos. Não via mais na na-
cionalidade um critério avaliador de qualquer conteúdo
[30] humano. As nações sem exceção estavam condena-
das. Restava o ingresso nas Sociedades Minimais.
O fato de ser brasileira ou americana já não a co-
movia. Ter nascido aqui ou ali era um mero acidente. O
futuro viveria das migrações. O cara só tinha de decidir
[35] que Sociedade Minimal escolher. E para lá então se
dirigir. Não importava que estivesse na Terra do Fogo
e escolhesse uma Minimal na Groelândia.
Adaptado de: NOLL, João Gilberto. Bandoleiros. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Supondo-se que fosse possível uma conversa entre Carlos Drummond de Andrade e João Gilberto Noll, tendo em vista o conteúdo dos textos 1 e 2, qual das alternativas a seguir NÃO seria coerente com o ponto de vista dos autores nos segmentos apresentados?