Legado
Que lembranças darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar taciturno entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Andrade, Carlos Drummond de. Claro enigma – 1.ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p.19.
A análise do poema, tendo em mente as características drummondianas presentes em Claro enigma e os demais poemas da obra, permite-nos inferir que