Leia atentamente o texto a seguir:
Eu me consolava das proibições nessas fugidas aos arredores do engenho. Os meninos dos moradores brincavam comigo sem receio, pois até lá não chegavam os zelos de minha gente. Na casa de Maria Pitu demorava- -me tardes inteiras, com o carneirinho amarrado comendo folhas de cabreira, enquanto eu, solto com os camaradas, fazia tudo o que não me consentiam fazer no engenho. Eram três os meninos de Maria Pitu. E um doente, coitado, sempre sentado num caixão, e com uma cabeça enorme, pendendo. Não andava, não falava, a cabeça arriada para a frente, com o peso, olhando para o mundo com uns olhos queimados de vivacidade. Desde que nascera que era assim. A mãe tratava dele como de um bicho doméstico. Dava-lhe a comida com uma colher de pau, deixando-o esquecido dentro do caixão, no terreiro. Fazia-me horror essa criatura quase desumana. Mas os seus olhos pareciam mesmo de gente. Pretos e vivos, fitavam-me com um interesse que me perturbava. Era, sem dúvida, por se tratar de coisa estranha da casa. Não tinha nome, não fora ainda batizado. Chamavam-no de Cabeção, e ele respondia com um riso de boca mole que fazia nojo. Às vezes ficava com medo dele, com aqueles guinchos que lhe saíam da boca. Era a fome. E davam-lhe um pedaço de brote para roer. A mãe desejava-lhe a morte em todas as conversas.
— Deus Nosso Senhor devia levar aquilo do mundo. Só dava trabalho, aquele aleijão. Seria até um alívio para o pobrezinho
Mas ele não morria, como se estivesse muito sólido e satisfeito daquela miséria da natureza. Voltava para casa pensando nele. Ouvira dizer que o pai morrera de beber. O filho nascera assim por causa da cachaça.
(REGO, José Lins do. Menino de engenho. 102. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. p. 119- 120.)
Esse trecho da obra de José Lins do Rego mostra o tratamento dado a uma criança fisicamente deficiente. O tratamento dispensado aos deficientes físicos, felizmente, evoluiu significativamente. Do descaso, do extremo do abandono, passamos ao respeito e ao acolhimento. A educação e o conhecimento contribuíram para evidenciar a obrigação do respeito às diferenças. Analise as assertivas a seguir:
I - As expressões “criatura quase desumana”, “roer”, “aqueles guinchos que lhe saíam da boca”, conotam a zoomorfização do filho de Pitu.
II - Em “Mas os seus olhos pareciam mesmo de gente.”, a conjunção adversativa indica que, no seu íntimo, o narrador-personagem enxergava em Cabeção um ser humano.
III - O amor da mãe pelo filho com limitações evidencia- -se ao desejar sua morte em todas as conversas e, com isso, seu descanso.
IV - As limitações do corpo e da mente não impediam o filho de Pitu de perceber o que se passava a seu redor.
Assinale a alternativa que apresenta todos os itens corretos: