Leia atentamente o texto a seguir para responder à questão.
Analfabetismo funcional
[1] A condição de analfabeto funcional aplica-se a indivíduos 1 que, mesmo capazes de
[2] identificar letras e números, não conseguem interpretar textos e realizar operações
[3] matemáticas mais elaboradas. Tal condição limita severamente o desenvolvimento
[4] pessoal e profissional. O quadro brasileiro é preocupante, embora alguns indicadores
[5] mostrem uma evolução positiva nos últimos anos.
[6] Uma variação do analfabetismo funcional parece estar presente no topo da
[7] pirâmide corporativa e na academia. Em uma longa série de entrevistas realizadas por
[8] este escriba, nos últimos cinco anos, com diretores de grandes empresas locais, uma
[9] queixa revelou-se rotineira: falta a muitos profissionais da média gerência a capacidade
[10] de interpretar de forma sistemática situações de trabalho, relacionar devidamente causas
[11] e efeitos, encontrar soluções e comunicá-las de forma estruturada. Não se trata apenas
[12] de usar corretamente o vernáculo, mas de saber tratar informações e dados de maneira
[13] lógica e expressar ideias e proposições de forma inteligível, com começo, meio e fim.
[14] Na academia, o cenário não é menos preocupante. Colegas professores, com
[15] atuação em administração de empresas, frequentemente reclamam de pupilos incapazes
[16] de criar parágrafos coerentes e expressar suas ideias com clareza. A dificuldade afeta
[17] alunos de MBAs, mestrandos e mesmo doutorandos. Editores de periódicos científicos da
[18] mesma área frequentemente deploram a enorme quantidade de manuscritos vazios,
[19] herméticos e incoerentes recebidos para publicação. E frequentemente seus autores são
[20] pós-doutores!
[21] O problema não é exclusivamente tropical. Michael Skapinker registrou
[22] recentemente em sua coluna no jornal inglês Financial Times a história de um professor
[23] de uma renomada universidade norte-americana. O tal mestre acreditava que escrever
[24] com clareza constitui habilidade relevante para seus alunos, futuros administradores e
[25] advogados. Passava-lhes, semanalmente, a tarefa de escrever um texto curto, o qual
[26] corrigia, avaliando a capacidade analítica dos autores. Pois a atividade causou tal revolta
[27] que o diretor da instituição solicitou ao professor torná-la facultativa. Os alunos parecem
[28] acreditar que, em um mundo no qual a comunicação se dá por mensagens eletrônicas e
[29] tuítes, escrever com clareza não é mais importante.
[30] O mesmo Skapinker lembra uma emblemática matéria de capa da revista norte
[31] americana Newsweek, intitulada “Why Johnny can’t write”1. Merrill Sheils, autora do
[32] texto, revelou à época um quadro preocupante do declínio da linguagem escrita nos
[33] Estados Unidos. Para Sheils, o sistema educacional, da escola fundamental à faculdade,
[34] desovava na sociedade uma geração de semianalfabetos. Com o tempo, explicou a
[35] autora, as habilidades de leitura pioraram, as habilidades verbais se deterioraram e os
[36] norte-americanos tornaram-se capazes de usar apenas as mais simples estruturas e o
[37] mais rudimentar vocabulário ao escrever, próprios da tevê.
[38] Entre as diversas faixas etárias, os adolescentes eram os que mais sofriam para
[39] produzir um texto minimamente coerente e organizado. E o mundo corporativo também
[40] acusou o golpe, pois parte de sua comunicação formal exige precisão e clareza,
[41] características cada vez mais difíceis de encontrar. Educadores mencionados no artigo
[42] observaram: um estudante que não consegue ler e compreender textos jamais será
[43] capaz de escrever bem. Importante: a matéria da Newsweek é de 1975!
[44] Quase 40 anos depois, os iletrados trópicos parecem sofrer do mesmo flagelo. Por
[45] aqui, vivemos uma situação curiosa: de um lado, cresce a demanda por análises e
[46] raciocínios sofisticados e complexos. E, de outro, faltam competências básicas
[47] relacionadas ao pensamento analítico e à articulação de ideias. O resultado é ora
[48] constrangedor, ora cômico. Nas empresas, muitos profissionais parecem tentar tapar o
[49] sol com uma peneira de powerpoints, abarrotados de informação e vazios de sentido.
[50] Na academia, multiplicam-se textos caudalosos, impenetráveis e ocos. Se
[51] aprender a escrever é aprender a pensar, e escrever for mesmo uma atividade em
1Por que Johnny não consegue escrever [tradução nossa].
[52] declínio, então talvez estejamos rumando céleres à condição de invertebrados
[53] intelectuais.
WOOD JR., Thomaz. Analfabetismo funcional. Disponível em:
<http://www.cartacapital.com.br/revista/758/analfabetismo-funcional-6202.html>. Acesso em: 15 set. 2013.
Em relação ao emprego dos sinais de pontuação, analise as afirmativas.
I. As aspas empregadas na linha 31 marcam a ironia presente no título.
II. O ponto exclamativo que encerra a frase na linha 20 exprime entusiasmo.
III. A vírgula empregada na linha 44 isola adjunto adverbial deslocado na oração.
IV. A vírgula na linha 10 separa elementos que exercem a mesma função na frase.
Estão corretas apenas as afirmativas