Leia com atenção o fragmento do conto O padre surdo, de Mia Couto:
Escrevo como Deus: direito mas sem pauta. Quem me ler que desentorte as palavras. Alinhada só a morte. O resto tem as duas margens da dúvida. Como eu, feito de raças cruzadas. Meu pai, português, cabelos e olhos loiros. Minha mãe era negra, retintinha. Nasci, assim, com pouco tom na pele, muita cor na alma.
Falo de Deus com respeito mas sem crença. Em menino, não entrei em igreja nem sequer para banho de batismo. Culpa de meu pai. Reza, dizia ele, só serve para estragar calças. Em sua suspeita a igreja devia ser lugar pouco saudável.
— Pois mal se entra nela, dois passos dados e já se cai de joelhos!? Na escola, o padre me ponteirava: esse deve ser filho das chuvas. Não comparece em catequese, nem há doutrina que se lhe conheça. E aconselhava os restantes miúdos a me guardar afastamento:
— Fruto estragado deve sair do saco.
O conselho era seguido. Me evitavam. Hoje sei que não era por obediência ao padre. Eu estava só por razão de minha raça. Como escrito de Deus que a chuva manchara. Sim, o professor tinha razão: eu era filho da chuva.
(COUTO, Mia. O padre surdo. Estórias abensonhadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 131.)
Assinale a alternativa correta em relação ao modo como o narrador se apresenta nesse fragmento: