Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade, do livro Sentimento do mundo, publicado em 1940.
Lembrança do mundo antigo
Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo
[em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim,
[pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
(Carlos Drummond de Andrade. Antologia poética. São Paulo, Companhia das Letras, 2012)
Ao apresentar dois mundos em contraste, o eu poético revela sentir-se, com relação à sua própria realidade,