Leia o seguinte poema de Adélia Prado:
Qualquer coisa que brilhe
São eternos esta oficina mecânica,
estes carros, a luz branca do sol.
Neste momento, especialmente neste.
Ainda que se mova, tudo é parado e vive,
[5] num mundo bom onde se come errado,
delícia de marmitas de carboidrato e torresmos.
Como gosto disso, meu deus!
Que lugar perfeito!
[10] Ainda que volta e meia alguém morra, é tudo muito eterno,
só choramos por sermos condizentes.
Necessito pouco de tudo,
já é plena a vida,
[15] tanto mais que descubro:
Deus espera o pior de mim,
num cálice de ouro o chorume do lixo
que sempre trouxe às costas
[20] desde que abri meus olhos,
bebi meu primeiro leite
no peito envergonhado de minha mãe.
Ofereço cantando, estou nua,
[25] os braços erguidos de contentamento.
Sou deste lugar,
com tesoura cega cortei aqui meu cabelo,
sedenta de ouro esburaquei o chão
[30] atrás do que brilhasse.
Pois o encontro agora escuro e fosco
no dia radioso e único e não cintila.
Veio de Vós. A vida. Do opaco. Do profundo de Vós.
[35] Abba! Abba! Aceita o que me enoja,
gosma que me ocultou Teu rosto.
Vivo do que não é meu.
Toma pois minha vida
[40] e não me prives mais
desta nova inocência que me infundes.
PRADO, Adélia. Miserere. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015. p.89-90.
Sobre o poema em questão, considere os seguintes comentários:
I. O eu lírico descobre exultante que a beleza de sua vida encontra-se exatamente no reconhecimento de seus limites, defeitos e fragilidades, bem como na experiência da simplicidade das coisas do cotidiano tais como são.
II. O eu lírico experimenta uma epifania diante de realidades banais, tais como a “oficina mecânica”, os “carros”, a “luz do sol”, as“marmitas de carboidrato e torresmos”, que servem de provocação para a descoberta para um senso mais profundo da existência.
III. Em atitude religiosa, o eu lírico apresenta-se tal como é diante de Deus, encontrando no reconhecimento e na aceitação de sua própria pequenez e falibilidade a “nova inocência” que lhe confere sentido à existência.
Encontra-se adequado à intepretação do poema o que se afirma em