Leia o texto a seguir para responder à questão
TEXTO
O Flautim
Um cidadão em Santa Teresa possuía um país secreto que lhe consumia os melhores minutos da
existência.
Gostava de tocar flautim. Nos dias de trabalho, só pela manhã lhe era concedido colocar os dedos
no sóbrio instrumento e soprá-lo. Mas havia os sábados e, mais que estes, os domingos. No quarto
[5] modesto, defronte à janela aberta, ele entoava a sua música, ora imitando composições alheias, ora
deixando que uma nesga de céu o inspirasse e fizesse compartir as sugestões da natureza. Músico de
ouvido, tinha olhos de bom contemplador das obras de Deus e dos homens, e tanto isso era verdade que
o flautim não silenciava. Basta dizer que, no apartamento do lado, havia um advogado que se habituara
a dormir embalado pelo doce refrigério musical, que amortecia os nervos como flauta de um hindu.
[10] O apartamento era pequeno. Solteiro, o cidadão tinha o flautim como outros têm mulher, filho,
quadro abstrato ou coleção de selos. De tinta romântica, sonhava ser enterrado um dia juntamente com
o instrumento, já tendo feito a recomendação cabível às pessoas mais íntimas.
À primeira vista, todos gostavam dele e do instrumento. Uma senhora do quarto pavimento
chamava a atenção dos filhos para a música do flautim, e era de opinião que não havia melhor educação
[15] artística para os garotos, gratuitamente deslumbrados sem precisar sair do edifício. A cozinheira do
apartamento dos fundos desde muito vivia entre dois fogos, pois não sabia o que mais amar no mundo,
se as novelas de rádio ou a música do flautim. Uma solteirona do térreo, encontrando o flautista à saída
do elevador, lhe declarara que sua música possuía um sentido religioso. Tal opinião não era partilhada
pela jovem casadoura do 807, que sublinhara: “Isso é música de quem teve um amor contrariado”. E
[20] todo o edifício contava com sua tarde de sábado e seu inteiro domingo consagrados às alegrias e
pungências do flautim.
Certo domingo, no momento em que o músico procurava traduzir em sonoridade o vento que lhe
entrava pelo quarto, a campainha soou. Foi abrir, e um homem gordo e suado se apresentou: viera ver o
flautim.
[25] Ante a surpresa e tartamudeio de nosso personagem, exibiu um jornal daquela manhã e um
anúncio assinalado. Trêmulo, o flautinista leu: “Por motivo de viagem, vende-se um flautim
completamente novo, marca inglesa, sonoridade magnífica. Preço: 100 cruzeiros. Ver e tratar à...”
Seguiam-se o nome e endereço.
Ele explicou a farsa que havia em tudo aquilo. Não tencionava vender o flautim, decerto fora
[30] alguma brincadeira de colegas.
Cinco minutos depois, era obrigado a dar a mesma explicação a outro senhor, desta vez esgalgo
e irônico.
Voltou ao instrumento. Não decorrera ainda meia hora, e a sua música se interrompia no
momento que ele ousava captar o pipilar de um passarinho no parapeito da janela. Como se fora um rito,
[35] realizou-se a mesma explicação, e as desculpas coincidiram com a decepção dos compradores
interessados naquele negócio da China.
Até a noite, desfilaram pela porta do apartamento inúmeros candidatos àquele flautim inglês,
mágicos de sons, a ser vendido por uma ninharia, o que não representaria uma venda, mas doação
milagrosa.
[40] Exausto, amargurado, o músico compreendera que havia no edifício alguém que não suportava
sua modesta e amorosa arte, e pusera o anúncio infamante. Sentiu-se rodeado de inimigos que queriam
suprimir-lhe o único deleite da vida.
Teve forças, contudo, para reagir ao anônimo desafio, e continuou a dedicar ao instrumento as
suas horas feridas.
[45] Sua música, porém, não festejava mais a alegria solar, a grandeza da paisagem, a doçura da
manhã. De entusiástico, ele se tornou elegíaco. Todos, no edifício, sentiram a transformação do músico.
A solteirona triunfava, pois o sentimento religioso suplantava a sugestão do amor. E a cozinheira,
derramando furtivas lágrimas na macarronada, temperando-a com a sua emoção, exigia que se desligasse
o rádio que transmitia, barulhento, um drama capaz de comover as pedras.
(IVO, Lêdo. O Flautim. In: SALES, Herberto. Antologia de Crônicas. 6 ed. São Paulo: Ediouro, 2005, p.90-91)
No período a seguir: “E todo o edifício contava com sua tarde de sábado [...]” (linhas 19-20), observamos o uso de uma figura de linguagem, a qual se denomina: