Leia o texto de Roberto DaMatta para responder à questão.
Outro dia fui a um concerto. No local do espetáculo, naqueles momentos que antecedem o som melodioso e afinado das peças musicais, senti mais de perto as emoções que sempre me dominam antes de qualquer drama que vejo ao vivo. Sentimentos de expectativa e de ansiedade me faziam esfregar as mãos e olhar em volta, esses sentimentos que o cinema e, sobretudo, a televisão marginalizaram definitivamente, posto que apresentam imagens de mão única. Cenas que apenas saem das telas em nossa direção, jamais podendo receber de volta nossa reação indignada ou nossos aplausos mais calorosos. Sem a possibilidade de uma reciprocidade curta que eventualmente traz um sentimento inefável de grandeza ou de aborrecimento incontido, o cinema e a TV (cada qual a seu modo, mas numa graduação palpável) suprimiram um dos ingredientes mais importantes do drama (e do rito), que é, precisamente, a possibilidade de dar alguma coisa de volta, diretamente e em cima da hora, aos seus criadores e oficiantes. Isso é o que, a meu ver, constitui a magia do teatro, dos concertos e dos rituais, sendo possivelmente a semente das transformações profundas que tais atos dramáticos podem causar na vida de cada um de nós.
(Explorações, 2011.)
“sendo possivelmente a semente das transformações profundas que tais atos dramáticos podem causar na vida de cada um de nós.”
Utilizada no trecho em sentido figurado, a palavra sublinhada deve ser entendida como: