Leia o texto e responda ao que se pede na questão.
Clarimundo torna a sentar-se à mesa. Os seus óculos refletem a lâmpada elétrica que pende do teto. Sua franja treme de indignação.
[...]
Animado, põe-se a falar sobre a importância da quantidade. Esporeado pelas suas próprias palavras, embriagado pelos próprios argumentos, Clarimundo parece não querer mais parar o discurso. O que importa nessa hora é a quantidade.
A aluna de boina azul entregou a virgindade ao namorado que agora se recusa casar com ela. O sargento do Exército sonha com os galões de tenente e sofre porque não pode compreender as equações de primeiro grau nem decorar as fórmulas da química. O senhor de cabelos grisalhos suporta em silêncio a vergonha de ter de frequentar aos quarenta anos um curso de preparatórios porque precisa dum diploma e precisa do diploma porque lhe é imprescindível ter uma profissão liberal a fim de ganhar dinheiro para sustentar a família numerosa. Aquele rapaz pálido, que olha medroso para o professor, trabalha dez horas por dia e ganha um ordenado miserável. Seu companheiro de carteira pensa ansioso na namorada que o espera à janela para a prosa de todas as noites. Num dos cantos da sala agita-se inquieto um rapazola louro que não sabe como há de pagar a pensão no fim do mês, pois não encontrou ainda emprego e não quer interromper os estudos.
Mas nesse instante só uma coisa importa: a quantidade.
(Verissimo, Érico. Caminhos Cruzados. São Paulo, Companhia de Bolso, 2016, p. 114-115.)
Considerando o período literário dessa produção, afirma-se, corretamente, que Érico Veríssimo