IFSC 2022 · Questão 11
Leia o TEXTO I, a seguir, para responder às questões 11 a 14.
TEXTO I
GPS
1 Entrei no tá falei o meu destino.
2 – Rua Araribóia, por favor.
3 – Araribóia? Espera um minuto!...- rebateu o homem.
4 Programou então seu GPS e arrancou.
5 Não precisa de GPS, amigo. Sei mais ou menos onde fica. Posso lhe orientar.
6 – Ah, não. Não saio mais de casa sem isto – declarou.
7 Resmunguei em silêncio. E lá se foi o taxista seguindo seu brinquedinho falante – “vire à
8 esquerda"; "a 50 metros você vai virar à direita”; “daqui a 300 metros faça o retorno à
9 esquerda"...
10 De repente, entre uma e outra prosa, vi ele se afastando da direção que eu julgava ser a
11 correta.
12 – Amigo, acho que você está na direção contrária. Tinha que ter entrado naquela rua à
13 direita, melhor fazer o retorno na frente.
14 – Não, não, olha aqui – apontou pra geringonça, orgulhoso como ele só. É esse
15 mesmo o caminho.
16 Cocei a cabeça irritado. Embora eu não soubesse exatamente qual o trajeto a seguir,
17 sabia que aquele caminho que ele fazia era estupidamente mais longo e complexo.
18 Argumentei mais uma vez, já na iminência de explodir.
19 Moço, desculpe, mas tenho quase certeza de que você está fazendo um caminho
20 muito mais longo do que devia.
21 – Não esquenta a cabeça não, companheiro. Tá aqui no GPS, ó. Não vou discutir com
22 a tecnologia, né, amigo?
23 “Não vou discutir com a tecnologia.” Sim, eu havia ouvido aquilo. E mais que uma
24 frase de efeito de um chofer de praça, aquilo era uma senha que explicava muita coisa,
25 talvez explicasse até toda uma época.
26 O sujeito deixava de lado sua inteligência (se é que a tinha), a experiência de anos
27 perambulando a bordo do seu tá pelas quebradas da cidade e o próprio poder de dedução
28 para seguir uma engenhoca surda e cega – mas "tecnológica" – sem questioná-la, e sem
29 que eu também pudesse fazê-lo.
30 Não quero parecer um dinossauro (embora por vezes eu inevitavelmente pareça), mas
31 sempre defendi um uso inteligente, comedido e crítico dos apetrechos eletrônicos. Conheço
32 pessoas que, por comodidade, condicionamento ou deslumbramento com o novo mundo
33 cibernético, não se deslocam mais à esquina para comprar pão sem que façam uso de GPS,
34 Google Maps e o escambau.
35 Tenho um sobrinho, um pensador irreverente de botequim, que gosta de dizer o
36 seguinte:
37 – As rodas de bar ficaram muito chatas depois do iPhone. Ninguém mais pode ter
38 dúvida alguma. Se alguém perguntar: "como é o nome daquele cantor que cantava aquela
39 música?"; ou então: “quem era o centroavante da seleção de 86?”, logo algum bobo alegre
40 vai acessar a internet e buscar a resposta. E aí acabar com a graça, a mágica e o mistério...
41 Não sobra assunto pro próximo encontro.
42 Outro amigo, filósofo de padaria, tem uma tese/profecia tenebrosa sobre o uso sem
43 critério dos tecnobreguetes: Diz ele:
44 Num futuro próximo, as pessoas deixarão de ter memória. Para que lembrar, se tudo
45 caberá num HD externo?
46 É. Faz bastante sentido a tese do meu amigo. Aliás, há tempos não o vejo, o... o...
47 Como é mesmo o nome dele, gente? Aníbal, não. Átila, não... É um nome assim, meio
48 histórico... Desculpem aí, vou ter que espiar na agenda do meu celular.
Fonte: BALEIRO, Zeca. GPS. In: Isto É, 2011. Disponível em: https://istoe.com.br. Acesso em: 04 dez. 2021.
Analise os itens abaixo de acordo com a leitura e interpretação do TEXTO I.
I. O texto aborda o tema do uso exagerado da tecnologia nos dias de hoje.
II. O fato que dá origem ao texto é uma corrida de tá.
III. O motorista do táão concorda com o caminho proposto pelo GPS.
IV. O passageiro e o motorista acreditam que o GPS sugeriu uma rota mais curta até o destino final.
Resolução passo a passo com explicação detalhada
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