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As guerras do Brasil
Às vezes se diz que nossa característica essencial é a cordialidade, que faria de nós um povo, por excelência, gentil e pacífico. Será assim? A feia verdade é que conflitos de toda ordem dilaceraram a história brasileira, étnicos, sociais, econômicos, religiosos, raciais etc. O mais assinalável é que nunca são conflitos puros. Cada um se pinta com as cores dos outros.
O importante, aqui, é a motivação que marca e caracteriza cada conflito concreto. Assim, a luta dos Cabanos, por exemplo, embora contivesse tensões inter-raciais (brancos versus caboclos) ou classistas (senhores versus serviçais), era, em essência, um conflito interétnico, porque ali uma etnia disputava a hegemonia, querendo dar sua imagem étnica à sociedade. O mesmo ocorre em Palmares. Tida frequentemente como uma luta classista (escravos versus senhores), que se fez, no entanto, no enfrentamento racial, que por vezes exibe como seu componente principal. Também os quilombolas queriam uma nova forma de vida social, oposta àquela de que eles fugiam. Não chegaram a amadurecer como uma alternativa viável ao poder e à regência da sociedade, mas suas lutas chegaram a ameaçá-las.
Um terceiro exemplo é Canudos, que também mostra essas três ordens de tensão. A classista prevalece porque os sertanejos, sublevados pelo Conselheiro, combatiam, de fato, a ordem fazendeira, que, condenando o povo a viver num mundo todo dividido em fazendas, os compelia a servirem a um fazendeiro ou a outro, sem jamais ter seu pé de chão. Em consequência, não tinham qualquer possibilidade de orientar seu próprio trabalho para o atendimento de suas necessidades. Mas lá estavam pulsando os conflitos raciais e outros, inclusive o religioso.
O processo de formação do povo brasileiro, que se fez pelo entrechoque de seus contingentes índios, negros e brancos, foi, por conseguinte, altamente conflitivo. Pode-se afirmar, mesmo, que vivemos praticamente em um estado de guerra latente, que, por vezes e com frequência, tornou-se cruento, sangrento.
RIBEIRO, Darcy. A formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 167-8. [Adaptado]
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