Leia o trecho a seguir, que corresponde ao início do nono capítulo de Maria Bonita, romance publicado por Afrânio Peixoto, em 1914, e responda à questão.
Na Boa Vista, no Jacarandá, fora um “Deus-nos-acuda!”. Diogo, ferido numa perna, tivera de se arrastar até a beira do rio, abandonado pelos companheiros. Chamada pelos lamentos, uma canoa, que subia, se aproximara da margem e o conduzira para casa. Já o rumor, divulgado pelos fugitivos, espalhara a notícia, exagerada pelo medo e pelos comentários, do ataque noturno, sem esquecer a causa. “Seu” Diogo tinha ido roubar a moça, contando com a ausência do pai e do irmão, e fora recebido por uma descarga. Estava gravemente ferido.
A princípio a voz pública, sincera no primeiro ímpeto, exaltara, sem temor às conveniências. “Bem feito! para que fora mexer com o alheio? Quem com muitas bole, alguma pedra lhe há de dar na cabeça”. E os que sofriam as arrogâncias do rapaz, ou lhe assistiram aos desmandos, regozijavam-se por uma lição, que seria proveitosa. Quando se levantasse desta, estava curado e deixaria em sossego as filhas dos outros. Não havia como bala para dar juízo a valentão. Iam ver como aquele bicho revesso viria acabar num veludo.
Mas em pouco, a justiça, despertada pelos poderosos que entendiam não dever ficar o crime sem punição, pelos amigos e dependentes, que pareciam achar demais uma repulsa armada contra o que chamavam “uma rapaziada”, moveu logo perseguição contra a família de André Gonçalves.
Começaram a surgir argumentos contra eles. Eram estranhos, gente brava, que viera corrida de fome e andava agora “pabulando” com luxos. Ingratos, que receberam tantos benefícios dos patrões e em paga lhe quiseram matar o filho. A culpa seria certamente daquela sonsa da Maria Bonita, que, depois de se engraçar talvez com o rapaz, fazia-se de boa, já tarde, a más horas. Só faltava agora que o outro, o Lulu, continuasse ainda a lhe dar trela e arrastar a asa.
(PEIXOTO, A. Romances completos. Rio de Janeiro: José Aguilar. 1962. p. 259.)
Com base no trecho, assinale a alternativa correta.