Leia o trecho a seguir.
Restrições à parte, eu gostava do curso. Não: eu adorava o curso. Não era o mesmo que estudar o Manifesto, longe disso, mas falava em coisas objetivas, palpáveis, úteis: geradores, acumuladores, dínamos, motores. Trabalhar com eletricidade era ingressar no terreno confortador da lógica científica, da precisão tecnológica: faça isso e acontecerá aquilo – sempre, sempre, sempre. Nenhuma margem para dúvida, ali: o polo positivo era positivo, o negativo era o negativo, e estávamos conversados. Nada de dialética, nada de uma coisa virar o seu contrário, nada de mentiras progressistas e verdades reacionárias, nada de crítica e autocrítica. Um alívio, portanto, ainda que inevitavelmente acompanhado de uma pesada culpa.
SCLIAR. Moacyr. Eu vos abraço, milhões. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 220.
No trecho transcrito, ao comparar o modo de pensar o mundo da física e o das ciências políticas, o narrador protagonista do romance Eu vos abraço, milhões evidencia uma mudança central na sua forma de pensar, a qual se manifesta no fato de que